Diferentemente do samba do circuito de bares das regiões Centro-Sul e Leste de BH, o samba das periferias pós-2000 redescobriu o quintal, a laje e espaços ressignificados como templos. A roda de samba extrapola o entretenimento e se constitui como dispositivo de ocupação simbólica do espaço urbano. Os instrumentos criam um momentos que movimentam corpos mas também demarcam resistência à especulação imobiliária e à precariedade do transporte público. O samba, assim, torna-se crônica sociológica sonora.
Dados do Observatório da Cultura da UFMG (2022) apontam que 74% das rodas de samba periféricas em BH não possuem CNPJ formal, mas movimentam uma cadeia média de R$ 8 mil por evento, envolvendo músicos, cozinheiras, artesãos e segurança comunitária. Essa informalidade produtiva desafia as categorias tradicionais de “mercado musical” e impõe novos desafios à pesquisa em gestão cultural. Ao mesmo tempo, entre 2018 e 2022, o número de autos de perturbação do sossego lavrados contra rodas de samba em bairros periféricos aumentou 120%, segundo a Guarda Municipal de BH.
O samba na periferia de Belo Horizonte no século 21 revela-se como um objeto multifacetado que é ao mesmo tempo expressão artística, estratégia de sobrevivência econômica e prática de resistência territorial. Para o campo da etnomusicologia urbana, ele desafia noções estáticas de tradição e incorpora funk, rap e hits modernos sem perder a matriz rítmica do samba de raiz. Para os estudos de políticas culturais, expõe as fraturas entre discurso de incentivo e prática repressiva.
BAR DO CACÁ
Em meio aos mais de 7 mil bares que compõem a cartografia boêmia de Belo Horizonte (um para cada 361 moradores, segundo dados da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes), poucos estabelecimentos sintetizam com tamanha fidelidade a relação entre samba, territorialidade negra e resistência cultural quanto o Bar do Cacá. Localizado na Rua Andiroba, 20, no bairro São Paulo, região Nordeste da capital mineira, o bar completa mais de três décadas de existência como um dos mais antigos redutos do gênero na cidade.
A história do Bar do Cacá remonta a 1989, ano em que Carlos Alberto dos Santos (o Cacá), ao lado do irmão e do cunhado, decidiu abrir as portas de sua casa para o samba. O contexto era adverso: conforme relembra o próprio fundador, “naquela época, o samba era grande no Rio, em São Paulo, aqui não” . Foi o encantamento pessoal de Cacá pelo ritmo, despertado ao assistir apresentações de Beth Carvalho, que o impulsionou a criar um ponto de encontro para amantes do gênero em uma cidade ainda dominada por outros circuitos musicais.
Ao longo de 37 anos, o bar consolidou-se como referência não apenas para a cena local, mas como espaço formador de novos sambistas. A casa mantém vivo o samba de roda como estilo predominante, recebendo artistas como a banda Simplicidade, que por anos animou os tradicionais domingos de apresentação . A identidade visual do estabelecimento, com a parede pintada nas cores verde e rosa da Estação Primeira de Mangueira e caricaturas de grandes nomes do samba, funciona como uma curadoria estética que lembra “quem veio primeiro”.
Um dos aspectos mais significativos do Bar do Cacá, e que o conecta diretamente às análises sobre o samba periférico contemporâneo, é sua relação intrínseca com as religiosidades de matriz africana. A casa, conforme registros, é descrita como uma fortaleza das tradições de matriz africana, mantida pelos filhos de Dona Bené, matriarca da família que também exercia práticas de benzedura .
Essa dimensão sagrada estrutura a própria experiência do samba no local. O Bar do Cacá mantém uma relação de respeito à ancestralidade que remete às origens do gênero. Como apontam pesquisas sobre o samba em Belo Horizonte, é bastante comum chegar em uma roda de samba em BH e ouvir ao menos um ponto de religiões de matriz africana. O Bar do Cacá figura como um dos precursores dessa inflexão.
Cacá, ao descrever sua herança, afirma ter “herdado o coração de minha mãe, Dona Bené, benzedeira que largava o que estava fazendo para benzer quem batesse à porta (aliás, cultuamos religião vinda da África)” . Essa fala evidencia como o bar opera em uma chave que extrapola o entretenimento, configurando-se como espaço de transmissão de saberes ancestrais e de acolhimento comunitário.
O século XXI impôs ao Bar do Cacá, como a tantos outros equipamentos culturais periféricos, o desafio da sobrevivência em tempos de crise sanitária. A pandemia de Covid-19 escancarou a vulnerabilidade econômica de espaços que operam na informalidade ou na economia criativa de pequeno porte. Entre março de 2020 e os meses seguintes, o Bar do Cacá acumulou dívidas que chegaram a quase R$ 50 mil. Os débitos incluíam contas de água e luz, fornecedores de bebidas e comerciantes locais.
O depoimento de Cacá à época é revelador das contradições enfrentadas pelos territórios do samba periférico: “A pandemia fechou meu bar. Distanciamento social é algo impensável quando falamos do Bar do Cacá. Os domingos de samba ao som da banda Simplicidade são o oposto do que é preconizado pela Organização Mundial da Saúde. São centenas de pessoas cantando, dançando e festejando”.
A resposta veio na forma de uma campanha de financiamento coletivo lançada em parceria com a Casa das Poesias, um coletivo de artistas que se instalou na Vila Andiroba em setembro de 2020. A iniciativa, que buscava arrecadar inicialmente R$ 15 mil, explicitava uma lógica de solidariedade comunitária e de reconhecimento do valor cultural do espaço. Um modelo de economia que poderia ser chamado de “economia circular do samba periférico”.
A trajetória de resistência do bar começou a receber reconhecimento institucional nos últimos anos. Em julho de 2023, por ocasião de suas três décadas e meia de existência, o estabelecimento obteve o título de “Bar com Alma”, concedido pela Prefeitura de Belo Horizonte em parceria com o Sebrae Minas. A iniciativa visa reconhecer bares tradicionais que preservam a identidade cultural e boêmia da capital mineira.
No eixo da territorialidade, o bar opera como um “lugar de fala” e de pertencimento. Ele é um empreendimento conectado ao tecido social do bairro São Paulo e da Vila Andiroba, articulando relações de vizinhança, solidariedade e memória familiar. No eixo da economia criativa, exemplifica tanto as vulnerabilidades do setor (evidenciadas pela pandemia em 2020), quanto as possibilidades de reinvenção via financiamento coletivo e parcerias com coletivos artísticos. No eixo das políticas públicas, a obtenção do título “Bar com Alma” representa um reconhecimento tardio, mas significativo, da importância do espaço para a identidade cultural de Belo Horizonte. Contudo, a trajetória de quase quatro décadas de existência com mínimo apoio institucional – e a necessidade de recorrer a vaquinhas virtuais para sobreviver – revela as fissuras entre o discurso de valorização da cultura e as práticas efetivas de fomento.
3PRETO
Se o Bar do Cacá representa a tradição do samba de quintal ancorada em três décadas de memória familiar, o 3Preto surge como uma expressão mais explícita das articulações entre samba periférico, identidade racial e empreendedorismo cultural negro em BH. Localizado na Avenida Dom Pedro II, 3608, no bairro Jardim Montanhês, o estabelecimento se autodenomina “reduto da cultura preta” e tem se consolidado como um dos principais pontos de samba raiz na cena contemporânea da cidade.
Diferentemente dos bares do circuito tradicional do samba belo-horizontino, historicamente concentrados em regiões como Lagoinha, Santa Tereza e Centro, o 3Preto escolheu como ponto de ancoragem o Jardim Montanhês, bairro da região Noroeste que faz divisa com áreas como Caiçara e está relativamente próximo do Complexo da Lagoinha. Essa localização, embora menos central do que os polos turísticos da cidade, revela uma estratégia de ocupação de territórios negros periféricos que dialogam com a história do samba na capital.
A programação semanal, com rodas de samba às sextas, sábados e domingos , evidencia a consolidação do bar como um equipamento de funcionamento regular, não eventual, o que o diferencia de muitas rodas que operam na informalidade.
O 3Preto construiu sua reputação a partir de uma curadoria musical que privilegia o samba de raiz, em contraposição ao pagode comercial ou a versões eletrônicas do gênero. A programação é marcada pela presença de grupos e artistas reconhecidos na cena local, muitos dos quais circulam também por outros redutos do samba periférico belo-horizontino.
Do ponto de vista da economia criativa, o bar opera em um modelo híbrido que combina a venda de consumo no local (cerveja gelada e petiscos) com a cobrança de ingressos para as apresentações musicais. Os valores são anunciados nas redes sociais do bar e variam conforme o evento. Esse modelo de negócio exige gestão de fluxo, controle de capacidade e emissão de ingressos e diferencia o 3Preto de rodas de samba inteiramente informais ou de bares que funcionam exclusivamente na base do consumo. A utilização de plataformas como Sympla para a venda antecipada de ingressos indica uma profissionalização da gestão que dialoga com as possibilidades abertas pelas tecnologias digitais no século XXI. Ao mesmo tempo, o bar não abandona uma proposta de relativa acessibilidade. Eventos gratuitos ou a baixo custo são promovidos, e a localização periférica contribui para preços de consumo mais baixos do que os praticados no circuito centro-sul da cidade.
BOTEQUIM MADUREIRA
O Botequim Madureira inscreve-se no mapa do samba periférico belo-horizontino com destaque para a gestão feminina do espaço e a valorização da paisagem como parte indissociável da experiência. Localizado na Rua Madureira, 293, no bairro Aparecida, na região Noroeste da capital, o bar tem se consolidado como um dos pontos mais celebrados da cena sambística contemporânea de BH.
Um elemento distintivo do Botequim Madureira é sua natureza como um espaço idealizado e gerido por mulheres. Idealizado por Adriana Correia, o botequim tem como “principal objetivo proporcionar um ambiente seguro para mulheres, estejam elas na plateia ou no palco” . Toda a equipe do Madureira é formada por mulheres, “desde o balcão até a cozinha”.
Em um universo historicamente dominado por vozes e corpos masculinos tanto na condução dos instrumentos quanto na gestão dos espaços de samba, o Botequim Madureira se apresenta como uma intervenção concreta nessa assimetria de gênero. Avaliações de clientes confirmam essa percepção: uma frequentadora descreve o bar como “dirigido por mulheres maravilhosas, drinks excelentes e a comida uma delícia”. Outra avaliação menciona “Adriana proprietária super atenciosa” como um dos pontos altos da experiência.
Essa configuração coloca o Madureira em diálogo com as pautas feministas contemporâneas e com os debates sobre segurança e acolhimento de mulheres em espaços noturnos. Em uma cidade onde assédio e violência contra a mulher em bares e casas noturnas ainda são recorrentes, um espaço gerido por mulheres e orientado para o público feminino constitui uma inovação significativa no circuito do samba periférico.
O bar está localizado em um ponto alto do bairro Aparecida e oferece aos frequentadores o que múltiplas avaliações descrevem como “o mais belo pôr do sol da cidade”. As avaliações d eclientes no Google são elucidativas: “O mágico nesse local é a área externa do bar e a altitude do local. Muito bem ventilado e com uma bela paisagem”. Outro frequentador descreve o bar como “lugar de paz, vista maravilhosa do bairro e pôr do sol lindo”. A combinação entre o pôr do sol e o samba ao vivo produz o que uma avaliação chama de “tarde de samba no Madureira [que] vira poesia”. Essa geografia que integra paisagem urbana, natureza e música confere ao Madureira uma experiência sensorial diferenciada.
O bar cobra couvert para as apresentações musicais, que duram cerca de 3 a 4 horas, e o valor é destinado integralmente aos músicos. No eixo da economia criativa, o Madureira apresenta um modelo híbrido: combina a informalidade típica dos botequins periféricos (funcionamento em área residencial, estrutura física relativamente simples) com uma política profissionalizada de cobrança de couvert e destinação integral aos músicos. Essa política, embora gere controvérsias, é mais transparente do que a de muitos espaços que cobram couvert sem repassar adequadamente aos artistas. O Madureira, nesse sentido, pode ser visto como um laboratório de experimentação de modelos de remuneração da música ao vivo na periferia.