A última edição regular da vai ter foi a de número 85. Nela havia 44 sugestões de shows, festas e exposições contemplando a semana entre 11 e 17 de março. Logo no dia seguinte ao envio começamos a acompanhar a enxurrada de eventos adiados ou cancelados. A verdade é que ninguém sabia direito o que estava acontecendo, e com as mudanças vieram alterações fundamentais no nosso cotidiano. Naquele contexto, a vai ter era simplesmente o menor dos nossos problemas. Foi uma interrupção inédita: desde 6 de junho de 2018, era certo que às quartas chegaria uma nova agenda no e-mail de nossos assinantes (exceto nas nossas ‘férias’ em janeiro). A partir de 18 de março, não teve.

Diante disso, a vai ter nº 86 se transformou em vai ter em casa, um apanhado de coisas para fazer sem sair de casa. A seleção ia desde vídeo-aula de alongamento com japoneses, receita de picles, aula de funk, até dicas mais óbvias, como documentários, shows ao vivo online, onde baixar livros, cursos gratuitos, revistas digitais e museus que podem ser visitados online, entre outras coisas. O que fizemos foi basicamente olhar para a rede e fazer um apanhado do que já estava disponível, com o mesmo olhar que usamos para fazer a vai ter habitual. Levando em consideração a suspensão da realidade daquele momento, também não fazia sentido para nós a publicação de um conteúdo exclusivo, restrito aos assinantes da agenda. Por isso, a vai ter em casa ficou – e permanece – aberta no nosso site para quem quer que seja. A resposta foi muito positiva e pessoalmente compartilhamos a alegria de termos feito a vai ter em casa na hora certa: um dia depois, vimos explodir na rede os conteúdos ‘fique em casa’ em todo tipo de veículo. Como veículo cultural, queremos sempre olhar pra frente e nesse momento, conseguimos.

Seguimos produzindo atualizações da vai ter em casa. Esse trabalho revelou como a demanda por produtos culturais durante a pandemia foi mudando. Se num primeiro momento os museus virtuais reinaram absolutos, logo deram lugar para outras propostas. As lives de artistas no Instagram e no Youtube também tiveram seu apogeu. Houve um momento em que a ordem do dia era ouvir a Teresa Cristina cantar no Instagram para ver se era possível aguentar mais um dia de crise política e colapso sanitário no jornal. Ou então participar de uma festa online transmitida de qualquer lugar do mundo. Hoje, lives de artistas e festas online parecem também cair em desuso.

Isso tudo em meio a muitas perguntas: como ficam os livros? Como ficam os bares? Como ficam os trabalhadores da graxa? Como ficam as milhões de pessoas que trabalham e dependem da cultura para sobreviver?

Seis meses depois do primeiro caso no Brasil, não nos parece prudente retomar uma agenda de eventos, ainda que eles tenham timidamente recomeçado, muitas vezes pelas mãos de marcas que insistem em nos enfiar goela abaixo uma falsa ideia de que as coisas estão voltando ao normal. Mesmo independente e pequena, a vai ter é um veículo de comunicação e tem sua parcela de responsabilidade. Estamos longe de voltar com uma agenda semanal de eventos presenciais e, por enquanto, não divulgaremos eventos desse tipo.

Continuaremos com atualizações da vai ter em casa e, a partir de 23 de setembro, quarta-feira, publicaremos quinzenalmente uma série de ensaios sobre assuntos relacionados a BH, cultura e nossas vidas no contexto atual. São textos especiais, selecionados via chamada pública, acompanhados de ilustrações inéditas da Esther AZ (autora da ilustração especial que abre este texto). Essa seleção foi realizada pensando na diversidade de temas, pessoas e regiões envolvidas. Os artigos serão escritos (em ordem de publicação) por Lara Luiza Spagnol Oliveira, Carlos Andrei Siquara, Maíra Neiva Gomes, Juliana Galvão Afonso, Fatini Nayara Lorena Santos, Neilton dos Reis Goularth, Samora N’zinga Soares Cardoso e Gabriel Augusto Reis de Araújo e enviados para todas as pessoas que se cadastraram para receber a vai ter, exclusivamente por e-mail.

Enquanto o encontro nos eventos presenciais não é possível, pedimos licença: nossa newsletter sem texto vai deixar de ser assim. Esperamos que as reflexões propostas pelos autores nos ajudem a pensar os próximos passos da cultura em BH e região metropolitana.

Até lá!