por Neilton dos Reis*

Prólogo:

não vou sair de casa

por mais um dia

vou ficar no meu quadrado sem sol

até anoitecer vou ficar aqui.

de noite, é importante dizer,

vem uma luz estranhamente quente

pra ser da lua, digo

é estranhamente aconchegante.

então vou ficar aqui

de caras com o café forte passado.

não vou sair

ontem também não o fiz

e duvido que o faça amanhã

quem sabe depois de amanhã

quando eu me arrependa de ter ficado

tanto tempo nesse canto sem limo.

Parte 1: um corpo-bicicleta que atravessa

Há algum tempo Matilde Campilho escreveu que “era capaz de atravessar a cidade em bicicleta / só para te ver dançar”. É nisso que penso quando eu subo na minha bicicleta e começo a atravessar uma parte da cidade. Não é para te ver dançar, é mais para resolver qualquer coisa burocrática que julgaram essencial manter no “novo normal” (mesmo quando a gente acha que não era essencial nem no “antigo normal”).

Eu subo na bicicleta e reparo que a cidade está mais bicicletável: mais ciclovias, mais pedestres, mais sombra. Quase consigo ver algo de positivo. Quase. Pedalo rápido. Rápido. Rápido. Rápido. Igual criança. Só pra depois deixar as pernas caírem e seguir um bom trecho só sentindo o vento e olhando para os lados, segurando o guidão com uma mão só. Na outra tem o celular. Eu preciso anotar um verso que acabei de criar. Não sei com quem aprendi isso, mas sei que foi recente. “Anotar senão esquece”.

Anoto, pedalo, ouço música, pedalo, olho a hora (em tempo), lembro mais de Matilde (“o cabelo todo desenhado ao vento…”), pedalo, recebo notificação, mais notificação, mais notificação. Live live live live.

Acho que foi por isso que saí de casa. Uma fuga da exaustão de lives. Mas que fuga errada da porra! Em direção às burocracias.

É tanta live que meu celular vibra e salta da minha mão. Outra fuga.

O tempo parece que para.

A tela já está trincada, não tenho grana pra consertar.

Penso que, se quebrar de vez, eu perco tudo aquilo que escrevi e que pensava em falar em algum momento.

Faço um movimento rápido, ainda que pareça o mais lento da minha vida de pegar no ar.

Um carro buzina e não sei se é pra mim.

O metrô passa.

Alguém dá um grito de espanto.

Pego.

No alívio de pegar o celular e voltar a respirar, olho para o lado. Elza Soares está me olhando.

Onde estou? Quanto pedalei por essa cidade?

Rua Sapucaí. Olho o grafite de Elza e penso no que aquela mulher já viu e ouviu.

É aqui que acontece o SLAM Avoa, amor!, do Coletivo Avoante.

Aqui que vi Thamara Selva declamando, Jazz e Joi também.

Que vazio está isso aqui! Nem parece aquela tarde de sábado depois da Praia da Estação. Nem parece…

O celular toca de novo. O tempo volta a correr.

Quantas horas fiquei olhando esse lugar?

São mais de 17h? Já?

Não há tempo para burocracias mais.

Pedalo de novo. No ato de olhar a Elza, olhar o celular, olhar a hora e anotar um verso, lembro de onde aprendi essa mania. É mania de Sarau. Mania de anotar naquilo que tem à mão. Mania de não ter que andar com Caderneta-de-Couro ou Caneta-Dourada pra escrever poesia. Mania de se virar com celular com tela trincada e com problema no carregador.

Persigo as manias.

É, eu era capaz de atravessar a cidade em bicicleta.

Passo por cima do Viaduto Santa Tereza e depois por baixo. Aqui tinha batalhas também.

Teatro Espanca, o SLAM Clube da Luta funcionava aqui? Com certeza a final do SLAM das Manas, sim.

Vou pela Praça da Estação. Ah, CRJ. Quantos saraus? Dá nem pra contar.

Amazonas. Rio de Janeiro. Sesc: final do SLAM MG. É eu vi Piê recitar aqui. E chorei.

Bahia: SLAM Porrada no Pensamento. Microfone livre.

Subo mais.

Praça da Liberdade, de novo SLAM do Amor.

Quando que comecei a ir aos SLAMs? Aos Saraus?

Se ao menos eu conseguisse lembrar.

Pedalo. Pedalo bastante.

Chego no Barreiro. Sim, foi aqui.

Do Viaduto pra Cá.

Eu nunca recitei no Do Viaduto pra Cá.

Penso em um verso sobre isso.

Pego pra anotar o celular que está descarregando. Típico.

Dá tempo de eu receber uma última notificação.

“Sarau começa em 30 minutos”.

Que?

Estou na oeste. Preciso chegar na leste.

Uma bicicleta e um celular descarregado.

É, eu era capaz de atravessar a cidade em bicicleta para te ver recitar.

Pedalo.

Interlúdio: olho cego vagueia procurando por um

Não há o que ver na praça da estação: não há pombos, não há sequência de paralelepípedos, não há estátuas humanas, não há caricaturistas, não há carrinho de pipoca, não há ponto de ônibus, não há trens, não há trilhos, não há minério, não há padaria com promoção de um pão de queijo com café é 2 reais, não há quem peça pra comprar balas, não há grito de dor nem riso de tropeços, não há criança que chora, não há mãe que bate, não há coroa de cristo, não há paquira aquática, não há estacionamento, não há carros para estacionar, não há mulher que manda comprar buchinhas para o cabelo, não há vasilhas pra lavar, não há comida pra fazer, não há banheiro pra limpar, não há bastardos pra criar. Não há mesmo o que ver na praça da estação, é só caminho, é só trombada apressada, é só grito de “alguém faz sinal pra esse”, é só “tô sem nada, meu querido”, é só balão escapando, é só resto de feira, é só aquilo que já aconteceu e que não acontece mais, é só vento forte pra fazer voar nada, é só acerto na repetição, é só falta de fôlego, e só parada pra tocar a bolsa de mão, é lugar pra prazer rápido se passa das duas da manhã, é só entrada do motel, é só cidade mal planejada, é só música que ninguém ouve, é só melodia sem canto. Não há mesmo o que ver na praça da estação, é só isso.

Parte 2: um corpo-corte no tempo e espaço entre as pedaladas em uma cidade

Tenho vontade de saber: o que aconteceu aos SLAMs e Saraus?

Procuro por SLAM das Manas. A rede continua ativa, mas sem eventos.

No Coletivo Avoante, o mesmo.

Do Viaduto Pra Cá, nada.

Sarau Coletivoz, ah! Tem sarau-live.

E olha, SLAM BR, organiza online suas competições e celebrações.

Me sinto um hacker. Imergindo entre páginas. Procurando por aquilo que movimenta. Eu quero estar junto. Quero estar. Voltar a sentir.

Mas começo a entender que a poesia e canção aqui são outras.

Há ainda criação, sim.

Há muita invenção.

Produção de possíveis.

Só que não (apenas) falado.

— E NUNCA FOI APENAS FALADO. É ISSO! —

Entendo outra economia de corpos, dinheiros e poesias. De arte.

Entendo que existe uma rede. Uma rede de redes. Trama de ajuda e afeto que mantém sustentável a arte na cidade.

Interlúdio: voltando ao ponto

E antes que eu me perca, pra resumir é um pouco disso que se trata: trazer para o corpo um pouco desse sentir que fica quando a gente tromba com qualquer coisa que não seja quatro paredes, dois ou três écrans e sublocações. Qualquer coisa mesmo. Trazer pras vistas e o umbigo a força da atração que fez desviar a andada de um ponto a outro da rodoviária, fugir pelo portão E2 e se acomodar da melhor forma no banco semi-leito pra um trajeto que vai durar oito horas com uma parada de trinta minutos para jantar na cidade dos queijos; que fez agarrar a criança com tanta força que nunca mais sairia aquele cheiro de polvilho dos cabelos, agitar as mãos para o vendedor de bugigangas do outro lado das barracas e assoprar vez após outra o cata-vento tentando concorrer com água e sal; que fez beber desesperadamente alguns copos tentando repor os líquidos perdidos, puxar ar com toda força para doer pulmões e assumir uma postura estratégica com os joelhos meio inclinados — o que significa que quero permanecer assim por um tempo do lado de fora e preciso de estabilidade e flexibilidade, na medida. a ideia é essa, trazer para os órgãos esse risco de atropelamento constante, esse risco de ver vida (dos outros e nossa). Trazer para a pele o arrepio que desse medo.

Não que isso possa ser escrito.

Parte 3: um corpo-três que sente

Eu chego em casa é já é julho.

Como o ano tem passado depressa? Como eu não sinto os dias passarem se nem estou fazendo o que gosto? Como que acordei e já é essa hora se não sonhei com você recitando?

O Instagram é @as3emponto. Coloco o celular na carga, abro a live. Assim que ouço o primeiro verso e vejo o primeiro sorriso, percebo que essa é diferente das lives lives lives lives. Essa é casa.

Às 3 em ponto é um coletivo de três artistas que promovem arte e respiros em tempos de pandemia. Surgiu durante a quarentena mesmo. Cada uma em sua casa, incomodadas, inquietas e órfãs dos espaços públicos. Órfãs de Elza e de Espanca. Órfãs de CRJ e de Viadutos. Órfãs de Subir Bahia e Descer Floresta. Não órfãs de artes.

Os Saraus às 3 em ponto têm sido abrigo das poetas e músicas das margens da cidade desde então. Abrigo que editais de financiamento não dão conta de dar a todas. Abrigo que os livros não são capazes de dar. Abrigo que as Lembranças Neste Dia do Instagram não dão conta de proporcionar.

Giu Poeta, Thamara Selva e Omar que dão as cartas e logo a gente começa a sentir o cheiro de cigarro, cerveja e baralho desgastado. Ouço Hill cantando, Jazz recitando, Belinha brincando. O formato é inventivo: têm convidadas, têm ligações surpresas. Tem muito riso e alguns choros também. Há quanto tempo a gente não fica junta assim?

E quando percebo, já é setembro. O terceiro sarau d’às 3 em ponto. Já?

Sim, já. Já falamos de festas juninas, de encontros, de outros mundos possíveis e agora estamos falando de saúde mental e tudo que isso atravessa a vida artística das quebradas da cidade.

Vejo poetas preocupadas com grana, fazendo corres de livros, promovendo outros trabalhos paralelos, trabalhando no que dá, tentando a vida no formato do (im)possível.

Tem mais gentes chegando. Mais formas. Mais participações.

Chega novembro e eu estou recitando.

Eu atravessei a cidade em bicicleta para escrever e recitar.

Enquanto leio as notas que escrevi no celular, sinto estar de novo na cidade, de frente para o público e para Elza, dançando no intervalo.

É, é quase como se eu estivesse ali de novo, sentindo o cheiro de cigarro e cerveja e ouvindo poesia saindo da boca que quero beijar.

Quase.

Epílogo: você parece aquele cigarro sendo fumado no intervalo dos versos

(poema sem título)

. Neilton dos Reis é escritor, mestre em Educação e editor da revista_ duas cabeças. Gosta de andar de bicicleta.

. ilustrações por esther az.

. esta publicação é parte da chamada pública de textos realizada pela vai ter, parte do projeto BH 121, nº0951, aprovado no Edital 2017 oriundo da Política de Fomento à Cultura Municipal (Lei nº 11.010/2016).