Por Maíra Neiva Gomes*

Salve, geral! Meu nome é Baile da Serra nas Quebradas. Tenho me sentido tão sozinha… Preciso desabafar! 

Muita gente acha que eu sou um maloca, mas eu prefiro que você me chame no feminino, zé. Eu só continuo existindo porque mulheres negras, bem marrentas, lá da minha quebrada, Aglomerado da Serra, lutam por mim todos os dias.

Ano passado, na Virada Cultural de Belo Horizonte, eu fiz o maior Baile Funk de Favela da história, com mais de 100 mil funkeiros/as na Praça da Estação. Mas, neste ano, estou me sentindo muito triste. O meu irmão Rapper, Djonga, até tentou me alegrar se referindo a mim como “boa de briga” em uma rima no MTV Miaw 2020.

Acontece que a pandemia me isolou dos meus irmãos/ãs que vivem aglomerados/as em Favelas nessa gigante Belo Horizonte. Cê fraga? Eu tenho ficado na janela do meu barraco, vendo os becos e vielas escuros, sem ouvir os risos e as conversas dos maloqueiros/as.

Durante o fim de semana fica pior. Sexta-feira era o dia de decorar minhas unhas, trocar minha lace, chamar minhas Consagradas para a gente se maquiar enquanto treinávamos os passinhos e desembolávamos os contatinhos no direct do Insta. Emociono só de lembrar…

“Amiga! Eles brotaram aqui em casa! Xia!”   

– Sextou, Bebê? Vários carros, altas motos… É o fluxo! 

– Solta o tamborzão, porra! Vapo. Vapo. Vapo.

Cai a noite e de todas as direções os Bondes vão piando por aqui. Saem de suas malocas somente após o pôr do sol. Em grupos bem definidos que frago por partilharem a mesma estética e os mesmos passos de dança. Identidade é territorial, linguística, estética e corporal.

Eita! O DJ percebeu que é preciso acelerar a batida e tem que ser agora! Em 20 minutos, meu barraco já lotou e os corpos querem chacoalhar.

Corpos coloridos, cabelos armados, correntes de ouro, copão na mão, gingado explodindo.

– Moleque, bota a base!

– Fatiada neles! Faz aquela cruzada de pernas!

– Chegou o Passinho Malado de Beagá!

– Os Moleque é brabo!

Aquele aglomerado de pessoas emboladas começa a tomar forma. No centro, abre-se um corredor, por onde desfilam as novinhas. Mulheres cis e trans ostentam seu rebolado, enquanto os homens se afastam para deixá-las passar, afinal, elas são brabas, como já cantava MC Nego Blue, em 2011.

Os corpos das Minas se posicionam em frente ao palco – de onde a proximidade permite que elas escolham as músicas que serão tocadas. Sim, elas gozam desse privilégio. Não existe Baile Funk sem a sua principal personagem: as mulheres. 

Mas me deixem falar mais do meu Território, onde nasci e vivo.

A Favela é um lugar público compartilhado, onde quase nada é privado. O lugar dos corpos, aqui, é junto a outros corpos. Aglomerados, segregados, silenciados, eles buscam resistir a sua própria estigmatização.

E aí, Menor? Tá pegando a visão? É importante tu entender o que é Racismo e como devemos resistir a ele. 

O Racismo elabora estratégias de extermínio dos corpos negros que ultrapassam o genocídio e o encarceramento em massa. Este corpo foi estereotipado pela política de eugenismo adotada pelo Estado brasileiro.

Tu sabes o que é eugenismo? Foi uma política de embranquecimento da população que incentivou a migração de europeus para o Brasil, a partir do fim oficial do regime de escravidão, com o único objetivo de apagar os traços étnicos e culturais africanos e indígenas.

No imaginário social, construído desde a invasão e colonização europeia, o corpo negro foi jogado no lugar da exploração e da ameaça. Se não dominado pela escravização, ele é compreendido como ameaça violenta à vida, à moral e aos costumes dos “civilizados” – branquitude do Asfalto.

Mas calma lá, zé! Não somos objeto da história, como canta Emicida. Somos sujeitos/as. Foram 388 anos de escravização e, se estamos aqui até hoje, é porque resistimos. 

A junção coletiva dos corpos e sua celebração, por meio de ritos religiosos e de expressões artísticas, são traços das culturas africanas, antes mesmo do processo de escravização. 

Aglomerar-se é um fenômeno observado nas periferias urbanas, não só como consequência da limitação espacial que nos é imposta, mas também como expressão da herança cultural afro – e indígena – preservada no aquilombamento diaspórico.

– Amiga, tô passada! O que é um quilombo? E que diáspora é essa da qual você está falando?

Lembra daquela letra da MC Carol de Niterói? Cabral não descobriu o Brasil e a Escola – até hoje – nega-se a nos ensinar a NOSSA história. E quando não sabemos a nossa história, não nos enxergamos no mundo.

Tá ligada nos cinco elementos do hip-hop, cultura da qual o Funk brasileiro se origina, não é? Dança (b-boy e b-girl), pintura (Grafitte), música (DJ), poesia (MC) e CONHECIMENTO? Nossa arte não é só lazer, ela também é nossa arma de luta. Senta e pega a visão no papo reto.

Quilombos foram uma forma de organização de resistência à escravidão no Brasil, sendo o de Palmares o mais famoso. Favelas, em grandes centros urbanos, também são uma forma de organização aquilombada, por preservarem diversos elementos culturais, por meio de um fenômeno chamado Diáspora Africana.

A Diáspora é caracterizada pela imigração forçada de homens e mulheres do Continente Africano para outras regiões do mundo. Esse processo foi marcado pelo fluxo de pessoas e culturas africanas através do Oceano Atlântico e pelo encontro e trocas de diversos grupos étnicos¹ e culturais, seja nos navios negreiros ou nos novos contextos que sujeitas/os escravizadas/os encontraram fora da África.

Mas não é apenas sinônimo da imigração à força e violência colonial. É a construção de novas formas de ser, agir e pensar no mundo. Os castigos físicos e o sofrimento fizeram parte da vida de homens e mulheres escravizadas/os. Mas as lutas diárias, os novos elos afetivos, os vínculos familiares, territoriais, culturais, linguísticos e corporais também. 

E tudo isso forma a cultura que hoje vivemos e que me enche de alegria e orgulho. Mas me faz pensar… e se não tivéssemos sido sequestradas/os da África e escravizadas/os nas Américas?

Com certeza, você assistiu ao filme Pantera Negra, né, zé? Aquela obra cinematográfica é afrofuturista! E eu também sou! 

Mas o que é isso, afinal?

Se não tivéssemos sido escravizadas/os, em que ponto de desenvolvimento tecnológico, econômico e social viveríamos no território de nossos ancestrais, a África?  

Foi um homem branco, em 1994, o teórico cultural Mark Dery, em seu ensaio Black to the Future, que criou o termo, enquanto criticava a ausência de autores negros na literatura de ficção científica nos Estados Unidos. Dery identificou o nascimento dessa estética política nos anos 1960, nas notas musicais do jazzista Sun Ra e nos próprios quadrinhos do Pantera Negra, publicados pela Marvel Comics, em 1966.

 A estética cultural do afrofuturismo une resistência, filosofia, história e arte a elementos de ficção científica, ficção histórica, fantasia, arte africana e afrodescendente. É como se inventássemos uma nova realidade, na qual as/os sujeitas/os, as linguagens, as culturas afro sejam os protagonistas – e não meros figurantes – daquilo que queremos contar: nossa história apagada e os dilemas que ainda enfrentamos como consequências da escravização e do racismo. 

E por que eu, Baile de Favela, estou me afirmando afrofuturista? 

Ser afrofuturista significa se permitir sonhar com outra realidade. Essa realidade pode ser utópica, aquela que imaginamos como melhor para todas/os, ou distópica, aquela nua e crua, fantástica, porém sem as fantasias imaginadas pela branquitude, como a ideia de que vivemos uma “democracia racial”. As narrativas afrofuturistas são especulativas sobre o passado ou futuro, sempre construídas sob a perspectiva negra, tanto africana quanto diaspórica.

Eu dizia que me sinto muito triste, pois os corpos não se encontram mais para se aglomerar em minha casa. A Favela permanece trabalhando durante a pandemia. Acorda cedo, pega busão lotado, perde o ralo, sai da Escola, não é atendida pelo serviço de saúde e sofre com a saudade do encontro.

Como suportar tudo isso? 

Aquilombando-se! 

Tenho valiosas/os amigos/as que utilizaram todos os recursos tecnológicos disponíveis para aliviar nossas dores.   

No dia 17 de agosto de 2020, meu DJ residente, Marcelo Mattos, morador da minha Quebrada, junto com quem cuida de mim, a Kika, que também é Presidenta da Associação de Moradores da Vila Cafezal, convocaram a Tropa do 7LC para mandar brasa em uma Live Solidária de Funk, transmitida ao vivo, tendo duração de 4 horas e 56.728 visualizações instantâneas. 

Recebi mais de duas dezenas de artistas que passaram pelo palco que improvisei. Meti umas luzes refletoras coloridas que iluminaram parte da Quebrada, enquanto – de seus barracos – meus irmãos/ãs piscavam as luzes e balançavam palha de aço para dar mais brilho aos drones que passaram essa visão linda para toda a Favela. 

Foi emocionante. Assim como aconteceu no Complexo da Maré, nossos corpos se encontraram pelo som, pelas luzes, pela tecnologia. Por quatro horas sonhamos que estávamos em Wakanda, em outra realidade.

Meus parças organizaram a Live para arrecadar doações para geral que tá sustentando nas costas os efeitos da crise sanitária, ambiental, econômica e social da pandemia. Mas esse corre começou em março, quando Marcelo Mattos, Kika e Kdu dos Anjos, do Centro Cultural Lá da Favelinha, formaram uma frente humanitária que, por cinco meses, distribuiu doações de cestas básicas, marmitas, chinelos, convocando artistas da nossa e de outras Perifas para distribuir os alimentos. Cerca de 100 jovens artistas que tiveram sua fonte de renda – arte – suspensa foram empregados. 

Dessa vez não tiveram como nos enviar doações de comidas vencidas, como era frequente. Nós estamos na mídia. Nossas irmãs do atelier Remexe Favelinha bombaram no New York Times com sua fabricação glamurosa de máscaras que distribuímos na nossa Quebrada. Kika fez parceria com a Favela Paraisópolis, em São Paulo, para fortalecermos as nossas diaristas e domésticas. Nós escrevemos nossa própria história.

O Funk tem nos ajudado não só a afastar a tristeza do isolamento, mas ele nos permite sonhar, comer, viver. Eu precisei me reinventar na pandemia, assim como todos aqui da Quebrada. Sou testemunha da nossa criatividade, solidariedade e resistência! Eu não sou crime. Sou arte! E assim que tudo isso acabar, espero te receber também no meu barraco!

. Maíra Neiva Gomes é funkeira, professora da UEMG e advogada popular. É integrante do coletivo Observatório das Quebradas/Aglomerado da Serra. 

¹ No Brasil, há a presença muito forte de dois grupos étnico-linguísticos africanos: yorubás e bantos. A autora desse texto é descendente do grupo étnico-linguístico Banto.

. ilustrações por esther az.

. esta publicação é parte da chamada pública de textos realizada pela vai ter, parte do projeto BH 121, nº0951, aprovado no Edital 2017 oriundo da Política de Fomento à Cultura Municipal (Lei nº 11.010/2016).